sexta-feira, 30 de julho de 2010

O HOMEM E O TEMPO, OU A FALTA DE...

A falta de tempo que nos consome na atualidade é absurda.
Ele, o tempo, em vez de auxiliar, virou um vilão, verdadeiro opressor.
Tempo é tudo o que se vive, o que está em cada um, e, incongruentemente, tudo o que nunca se tem.
Não há tempo mais para nada. E bem hoje, quando é tudo mais acessível?!
Já não se gere mais esse tempo como outrora. Tudo é “pra ontem”.
Como assim, pra ontem? Eu estou vivendo hoje, oras. Ontem ficou no passado. A ocasião própria pra qualquer ação minha é agora e não ontem. Confuso isso.
Ontem... Ontem... Ontem não tinha nem internet, não tinha celular, não se via tanta gente motorizada, e, pelo que eu me lembre, nem GPS existia.
Espere aí! Hoje tem tudo isso e não está bom? Os tempos mudaram tanto assim ou o ser humano que interpreta o tempo foi quem mudou?
É, sou mais a segunda opção.
Na época de meus avós, de meus pais, eles mandavam cartas. Era prática comum. Eu ainda experimentei essa gostosa sensação de escrever, ir ao correio, postar e depois receber a resposta. Tive dois amigos com quem pude compartilhar desse romantismo. Rascunhar, passar a limpo, escolher o papel, comprar o selo... Um tempo preciosíssimo.
Hoje, entretanto, só consegui manter a tradição de enviar cartão de natal, ainda assim, os e-mails, os torpedos continuam ano após ano tentando mostrar sua eficiente praticidade. Todavia, não abro mão de desenhar minhas letras carregadas de bons sentimentos.
Em outros tempos, também, quando morria um parente, o familiar ficava sabendo do passamento depois de uma ou duas semanas, e olhe lá. Era uma dificuldade até localizá-lo. Hoje, se o mesmo familiar estiver fora do país, em poucas horas ele chega pelo menos para o sepultamento. Meios de contato são muitos, no entanto, o sinal do celular é péssimo – a torre é nova -, a internet é lenta – demora um minuto pra abrir -, e ir ao correio pra enviar um telegrama fica fora de cogitação. Não há tempo.
As pessoas sofrem. E sofrem muito mais.
Uma fase além da pós-modernidade nos acometeu. Já é possível até mesmo acender uma vela virtual em gratidão a uma graça alcançada. Quem não tem tempo para o laborioso ofício de acender aquela vela de parafina, é só dar um clique na capela virtual e escolher a vela virtual de preferência. O fiel não precisa perder tempo para esperar a antiga vela queimar, não carece que fique velando sua chama para evitar o contato com a cortina e o risco de botar fogo na casa. O fósforo foi substituído pela password. Muito simples, não é?! Parece piada, no entanto, vale a fé.
Ah, e os amores? Amores duram uma estação. Casamentos duradouros são caretas e sexo é competição de quem pode mais. Aquele refinamento poético de romances românticos se perdeu por aí, no tempo.
Sabe... Percebo que jeitos de sentir o mundo se modernizaram. Acompanharam e continuam na corrida frenética para alcançar evoluções, contudo, mesmo assim, se assistem a adultos e crianças deprimidos, incapazes de esperar pelo tempo das coisas; imediatistas. Paciência deixou de ser virtude para ser defeito.
O homem tem tudo nas mãos, tudo para facilitar sua vida. O tempo? Cada vez mais escasso. Economia de tempo? Tem gerado apenas vida cada vez mais saturada, superficial e vazia.
Existe uma tendência de ansiedade nas pessoas, um medo louco de perderem tempo e não darem conta de fazer o que acham que são obrigadas a fazer, do jeito que uma cultura imbecil impôs que fosse feito.
A pressa neste contexto é vital. Aonde se quer chegar só Deus sabe.
É, a mudança parece antropológica mesmo.
Aquele que ainda aprecia algo bonito do passado ou continua se encantando com o romantismo de gestos simples, é o deslocado. Assim se sente.
O tempo presente acaba sempre comprometido e prejudicado porque não é vivido. A sensação de perda e de vazio é estável. Vive-se muito o tempo que talvez nem alcancemos.
E a consciência que nos falta é a de que somos mais felizes quando perdemos a noção desse tempo, seja qual for a ocasião.

13 comentários:

  1. Linda crônica, lindo texto Lucimara!! É, verdade, hoje vivemos sempre com pressa, sem tempo. Esquecemos das coisas simples. Ah, mas eu também adorava escrever cartas. Gosto de escrevê-las com minha própria letra. É mais pessoal. Gosto de perder tempo...esquecer dele e ficar com minha família, com as pessoas que amo. É preciso desacelerar e procurar pelas coisas simples que, de fato, valem à pena e que nos fazem felizes. Adorei o seu texto. Parabéns! Um bom final de semana, beijos ;)

    ResponderExcluir
  2. Olá, Lucimara
    o que mais gosto de fazer é perder tempo. Hoje dispensei um emprego, pois tinha dois,para poder perder tempo:cuidando mais de mim, jogando conversa fora com meus filhos ou amigos, nem que seja por telefone, enfim, fazer as coisas que gosto, sem pressa. Amo perder tempo olhando a lua, escrevendo um poema, observando a natureza, perder tempo É UMA DELÍCIA E FAZ BEM À SAÚDE. Bjos!!!!

    ResponderExcluir
  3. Concordo contigo. A solução pra sair dessa prisão temporal - e das garras dessa modernidade líquida, sempre apressada e inconsistente - é romper os laços com esse tempo... Esse tempo que exige resultados, que exige que nos movimentemos, que exige que façamos alguma coisa pra termos a ilusória sensação de que estamos fazendo a coisa certa e aproveitando o tempo de forma eficiente - isto é, que usamos a vida com o objetivo de conquistar coisas, mesmo que percamos o tesouro mais próximo de nós: nós mesmos.

    Beijos!!

    ResponderExcluir
  4. Lindíssimo texto.

    "De quem nos ama, esperamos sobretudo de um pouco de tempo ."

    Beijo.

    ResponderExcluir
  5. Menina, que delícia seus textos. Parabéns! É um grande prazer poder participar do seu Blog.
    Beijos,
    Lau

    ResponderExcluir
  6. Que legal seu texto, Lucimara. Eu também escrevi muitas cartas aos meus amigos, de próprio punho, e tenho saudades desse tempo romântico. Agora, cá entre nós, esse lance das velas virtuais é difícil de engolir, hein! Rs. Bom fim de semana, obrigado pelas visitas lá no blog e um beijão!

    ResponderExcluir
  7. Rodrigo,
    Velas virtuais... rs.
    Exclamei quando as vi pela primeira vez: meu Deus, até onde chegamos!!! ... rs.
    A chama até que é bonitinha.

    ResponderExcluir
  8. Lucimara que belo texto, enquanto lia-o voltava eu no tempo e daquele tempo trouxe para o meu presente o presente que guardava o meu amor. O amor de menina, o amor de mulher e o amor de agora, maduro e juvenil ao mesmo tempo. Todos num só, e vou apreciá-lo enquanto o tempo me permitir, dai que no momento ele, o tempo, não existe. Só eu e o meu amor existiremos pela eternidade...

    ResponderExcluir
  9. Cara Lucimara,
    seu texto sobre "o tempo" dos tempos de hoje está "fabulástico" (fabuloso+fantástico)!
    acho que esta voragem do dia-a-dia nos vai "matar" antes do tempo certo...
    Para mim, o importante, o fundamental, o imprescindível é termos tempo para quem amamos...
    abs

    ResponderExcluir
  10. Muito bom seu texto, Lucimara. Tenho um com a mesma temática, chamado "Manifesto pela volta do tempo". Antigamente, a vida era feita à mão. No entanto, o tempo sobrava para tudo e mais um pouco. Vá entender...
    Um beijo pra você e bom domingo.

    ResponderExcluir
  11. lindo texto. faço uma ressalva,porém. Não sei se irão concordar comigo, mas o tempo em questão também é um divisor de classes, como tantas outras coisas nesse país: Há os que PODEM perder tempo e os que NÃO PODEM.Os que podem são os que tem uma vida mais ou menos estável(um bom emprego, uma casa, uma família constituída, uma renda mensal satisfatória, etc.), e os que não podem são os que não tem nada disso, sequer casa própria ou família constituída.Quanto a esses, a vida não possibilitou muitas escolhas: ou trabalha, estuda e se forma cada vez mais,abnegando-se de quase tudo, ou perdem tempo, e se contentam com o pouquíssimo que tem.O mais curioso disso tudo é que os que não podem perder tempo são os que mais perdem...
    abraços!

    ResponderExcluir
  12. Olá Lucimara,

    vim agradecer sua visita no meu espaço e quero mencionar que gostei muito do seu texto. A falta de tempo é fruto de uma agenda louca,que tem que se fazer tudo e ao mesmo tempo não se obtém nada.Por causa dessa cultura imbecil,o homem vive como se fosse um bombeiro, sempre apagando fogo ao invés de viver a vida.

    Vejo uma falta de prioridades muito grande na vida das pessoas, principalmente aqui nos EUA.Being busy é moda aqui! se vc não está constantemente ocupado,é pq vc é "desocupado", e é impressionante como coisas banais se tornam prioridades pra eles.O tempo com a família é super reduzido.

    Não, não precisamos fazer tudo ao mesmo tempo o tempo inteiro. Se até Deus descansou no sétimo dia pra apreciar a criação, o homem assim deveria fazer tb :)!

    Bjos

    ResponderExcluir
  13. Obrigada, leitores, pela participação através dos comentários.
    Espero que vocês tenham todo o tempo do mundo para ser feliz! Percamos a noção do tempo...
    Abraços e até sexta-feira!

    ResponderExcluir

Obrigada por sua visita e comentário.
Volte sempre, pois é e será sempre um prazer dividir minhas letras com você!