
Espero que gostem.
A poesia lírica de Camões é marcada por dualidades: ora a presença de textos da herança da tradicional poesia portuguesa, ora textos enquadrados no estilo novo do renascimento, isto é, o poeta é tão tradicional quanto inovador. Suas obras chamam a atenção para o “caos interno” do eu-lírico, caracteriza o inefável e foge um pouco ao universal, tendendo ao particular.
O claro dualismo nos estilos camonianos é uma maneira de representar o desconcerto do mundo vivido pelo poeta, resultado de uma grave e questionadora atitude perante a realidade. Sendo este um dos temas que mais o perturbou, incomodado por tantas injustiças, ambições, sofrimentos e outras questões que o colocavam num conflito entre o ser e o dever ser, evidenciamos o confronto entre as informações de inspiração acadêmica e suas experiências de vida. Como homem de letras e armas, Camões sujeitou-se a conhecer homens, a cultura e o mundo de sua época, através de suas inquietações de compreendê-los em suas conquistas e em suas mudanças. Através do neoplatonismo, ele põe de um lado a perfeição do mundo das ideias e do outro as imperfeições do mundo terreno. É como se a vida humana estivesse condicionada a essas imperfeições e o espírito tentando buscar outros horizontes.
Nos sonetos, são apresentados temas lírico-amorosos, mas o poeta não se abandona ao fluxo emocional ou sentimental. Existe a expressão dos sentimentos, porém de forma muito racional; a emoção é contida nos limites do equilíbrio e da harmonia.
Dotado de indiscutível genialidade, Camões desenvolve, em seu discurso poético, enriquecido pelo lirismo renascentista, estritas regras de composição, adotando versos decassílabos e palavras precisas, além de utilizar aspectos maneiristas e obedecer ao princípio da imitação, tornando o texto um instrumento pelo qual a vida é expressa no âmbito paradoxal.
Em suas construções, utiliza-se, também, de silogismos: duas premissas – maior (universal) e menor (particular) que levam, através da dedução, a uma inegável conclusão. A explicação para o uso desta arte de raciocínio está na necessidade do poeta esclarecer tantas contradições nas quais se encontrava. Ele tenta ordenar suas ideias e atender a discursividade entre as formas contraditórias da mesma realidade. Embora breve, o texto requer concentração emocional e apresenta, na maioria das vezes, o desfecho conclusivo que busca a síntese ou a unidade.
Para evidenciar a construção silogística, segue análise do famoso soneto camoniano:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Conclui-se, através deste soneto, que existe a constante busca da compreensão e conceituação do processo amoroso. É como se Camões quisesse definir o indefinível e explicar o inexplicável, inventando contrastes para caracterizar esse “mistério”. Baseado nas ideias neoplatônicas, coloca frente a frente duas realidades contrárias, duas formas de amor: o espiritual - esfera inteligível - e o físico - esfera sensível -, ou seja, o sentimento visto como ideal de um lado e a manifestação da carnalidade de outro.
Para interpretar essas dualidades, Camões recorre, em suas obras, ao uso de antíteses, paradoxos petrarqueanos e pré-barrocos, bem como silogismos, recursos estes que enriquecem o texto, tornando-o mais emocionante e mais próximo do real.
Nos onze primeiros versos, podemos concluir que, para o poeta, o sentimento Amor é efetivamente contraditório. Pela lógica, tudo o que é contrário não causa conformidade, nem harmonia, gerando assim, sofrimento, o que ocorre neste soneto. Logo, sendo o Amor contraditório, não causaria conformidade.
Durante todo o texto, Camões dá referências contrárias em relação ao processo amoroso. No último terceto, todavia, aparentemente nos dá uma conclusão desconcertante sobre o que é o sentimento, a qual vem expressa através da interrogação, “afirmando” que o Amor causa conformidade nos corações mortais. Temos, assim, uma forma irregular na análise da estrutura silogística, uma vez que ocorre a ausência explícita de uma das premissas.
Essa indagação colocada no último verso, cuja palavra Amor faz com que voltemos à mesma análise construída no princípio do soneto, exprime a indecisão do poeta em relação ao sentimento e ao mesmo tempo atribui uma constatação empírica da realidade amorosa. O poeta serve-se da análise racional para chegar à conclusão.
Assim, a partir do conceito de que o Amor é constituído de contrários, o poeta manifesta a contradição em que fatalmente cairá o juízo que o pretenda explicar.
Trabalho apresentado no primeiro ano de graduação (Letras), em Literatura Portuguesa. Grupo: Lu, Sabrina, Marcela, Jordana
Olá amiguinha. Nós não nos conhecemos mas, neste mundo virtual, acabamos por conhhecer muita gente. Gostei desta sua postagem e prometo que vou voltar mais vezes. Vai aos meus blog's tenho a certeza que vai gostar.
ResponderExcluirwww.congulolundo.blogspot.com
www.queriaserselvagem.blogspot.com
Um beijão
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
ExcluirPassei aqui para agradecer a vc por ter se tornado seguidora lá do blog!
ResponderExcluirBjos e tenha um ótimo fds :)!
Olá Lu! Boa Noite.
ResponderExcluirPrefiro vc assim falando de amor, estado amoroso.......falar de Camões, suas poesias, combina com vc...é definir o indefinível e explicar o inexplicável....vc é assim...
Parabéns...
Beijos, saudade eterna.
Deborah
Bom refletir sobre a poesia de um autor tão importante pra língua portuguesa. Principalmente no Brasil de hoje tão "massacrado" pela chamada industria cultural que despreza o passado rico da língua.
ResponderExcluirObrigado pela reflexão Lucimara!
Bj
Bom dia.
ResponderExcluirGostei muito. No meu tempo, lia-se, Camões, José de Alencar, e outros.
Do Camões eu li pouco, do José de Alencar, mais.
Hoje, o tempo ficou menor para ler assim, mas eu continuo gostando.
Um grande abraço. Bom domingo.
Pereito esse soneto de Camões, o amor é assim mesmo, sereno, louco, ardente, calmo, vela o sono, briga, mas o mais importante, o amor é benigno, ele perdoa, ele é infinito, o verdadeiro amor é pra sempre, apesar de todos os conflitos que existirão...é eterno...um beijo de otima semana pra ti.
ResponderExcluirUm escritor português que adoro também, é o Fernando Pessoa.
ResponderExcluirOlá te vi lá na Denise..Revelar-me.
ResponderExcluirGostei bastante do Caligrama Coração.
Hoje comemoro o 1º niver do blog. Isso mesmojá são 365 dias que voo neste universo reconhecendo fragrâncias em muitas atmosferas pelas quais voei, inclusive a sua.
Então venha para festa que esta rolando. Com sua fantasia confessa ou inconfessa na forma de Conto, Poema,Poesia, Uma outra simbióse, a´te um Haikai e leve com vc se desejar o Selo do Niver da Gaivota ou outro.
Forte abraço com muitas bençãos,
Alôha,
Hod.
Um beijo carinhoso de otima semana pra ti amiga.
ResponderExcluirPassei aqui, para lhe desejar um bom dia.
ResponderExcluirUm grande abraço. Bons estudos.
Aos leitores, meu abraço!
ResponderExcluirVoltem sempre...
Bjs
Lu
Um excelente trabalho, com uma excelente visão, ainda que curta, da obra de Camões.
ResponderExcluirGostei de ler o seu ponto de vista.
Querida amiga, bom resto de semana.
Beijos.
Bons estudos.
ResponderExcluirUm grande abraço.
Muito boa sua análise, gostei da questão dos silogismos, precisamos conversar mais sobre...
ResponderExcluirGosto muito de Camões, no canto X d'Os Lusíadas ele reescreveu Platão, o Mito de Er...
adorei seu trabalho mande mais vezes para que eu possa trabalhar com ele também.
ResponderExcluirAnônimo,
ResponderExcluirIdentifique-se, passe seu email, blog...
Bjs
nossa muito boa sua interpretação!
ResponderExcluirÓtimo!!! parabéns pela sua maravilhosa interpretação.
ResponderExcluirTrazendo para a atual realidade, os sentimentos estão assim contraditórios...Realmente estamos vivendo uma antítese.
boas gostei bue deste poema e queria conhecer melhor a luciana. se ela ler isto responda. abba. antonio couto abecassis
ResponderExcluirOlá, Antonio,
ResponderExcluirEscreva-me: lucimaras_souza@yahoo.com.br
Um abraço!
Adorei, Lucimara - bem pensado, construído e escrito.
ResponderExcluirObrigado por se incluir na lista dos "seguidores", atributo que não me faz recordar bons augúrios..., mas a intenção é que vale.
Quando quiser, mande um texto para o Füllgrafianas, será uma honra publicá-lo.
Um abraço carinhoso.
Frederico
Obrigado, vcs são uns anjos.
ResponderExcluirTenho de explicar o poema e graças a vcs posso ter boa nota.
Obrigado mt obrigado <3
Muito bom texto, parabéns.
ResponderExcluiradorei este blog
ResponderExcluirMuito bom trabalho!! E devo dizer como professor que é um trabalho muuuito acima da média nas faculdades... Parabéns!!
ResponderExcluirObrigada, professor!
ExcluirEu imagino como devem estar os trabalhos por aí. Às vezes pego alguns para revisar e... Sinto medo! rs
Um abraço! Feliz por sua visita.