sexta-feira, 9 de abril de 2010

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Diferentemente dos textos que publiquei até hoje, trago aqui uma análise - silogística - de um famoso soneto camoniano.
Espero que gostem.

A poesia lírica de Camões é marcada por dualidades: ora a presença de textos da herança da tradicional poesia portuguesa, ora textos enquadrados no estilo novo do renascimento, isto é, o poeta é tão tradicional quanto inovador. Suas obras chamam a atenção para o “caos interno” do eu-lírico, caracteriza o inefável e foge um pouco ao universal, tendendo ao particular.
O claro dualismo nos estilos camonianos é uma maneira de representar o desconcerto do mundo vivido pelo poeta, resultado de uma grave e questionadora atitude perante a realidade. Sendo este um dos temas que mais o perturbou, incomodado por tantas injustiças, ambições, sofrimentos e outras questões que o colocavam num conflito entre o ser e o dever ser, evidenciamos o confronto entre as informações de inspiração acadêmica e suas experiências de vida. Como homem de letras e armas, Camões sujeitou-se a conhecer homens, a cultura e o mundo de sua época, através de suas inquietações de compreendê-los em suas conquistas e em suas mudanças. Através do neoplatonismo, ele põe de um lado a perfeição do mundo das ideias e do outro as imperfeições do mundo terreno. É como se a vida humana estivesse condicionada a essas imperfeições e o espírito tentando buscar outros horizontes.
Nos sonetos, são apresentados temas lírico-amorosos, mas o poeta não se abandona ao fluxo emocional ou sentimental. Existe a expressão dos sentimentos, porém de forma muito racional; a emoção é contida nos limites do equilíbrio e da harmonia.
Dotado de indiscutível genialidade, Camões desenvolve, em seu discurso poético, enriquecido pelo lirismo renascentista, estritas regras de composição, adotando versos decassílabos e palavras precisas, além de utilizar aspectos maneiristas e obedecer ao princípio da imitação, tornando o texto um instrumento pelo qual a vida é expressa no âmbito paradoxal.
Em suas construções, utiliza-se, também, de silogismos: duas premissas – maior (universal) e menor (particular) que levam, através da dedução, a uma inegável conclusão. A explicação para o uso desta arte de raciocínio está na necessidade do poeta esclarecer tantas contradições nas quais se encontrava. Ele tenta ordenar suas ideias e atender a discursividade entre as formas contraditórias da mesma realidade. Embora breve, o texto requer concentração emocional e apresenta, na maioria das vezes, o desfecho conclusivo que busca a síntese ou a unidade.

Para evidenciar a construção silogística, segue análise do famoso soneto camoniano:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos mortais corações conformidade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Conclui-se, através deste soneto, que existe a constante busca da compreensão e conceituação do processo amoroso. É como se Camões quisesse definir o indefinível e explicar o inexplicável, inventando contrastes para caracterizar esse “mistério”. Baseado nas ideias neoplatônicas, coloca frente a frente duas realidades contrárias, duas formas de amor: o espiritual - esfera inteligível - e o físico - esfera sensível -, ou seja, o sentimento visto como ideal de um lado e a manifestação da carnalidade de outro.
Para interpretar essas dualidades, Camões recorre, em suas obras, ao uso de antíteses, paradoxos petrarqueanos e pré-barrocos, bem como silogismos, recursos estes que enriquecem o texto, tornando-o mais emocionante e mais próximo do real.
Nos onze primeiros versos, podemos concluir que, para o poeta, o sentimento Amor é efetivamente contraditório. Pela lógica, tudo o que é contrário não causa conformidade, nem harmonia, gerando assim, sofrimento, o que ocorre neste soneto. Logo, sendo o Amor contraditório, não causaria conformidade.
Durante todo o texto, Camões dá referências contrárias em relação ao processo amoroso. No último terceto, todavia, aparentemente nos dá uma conclusão desconcertante sobre o que é o sentimento, a qual vem expressa através da interrogação, “afirmando” que o Amor causa conformidade nos corações mortais. Temos, assim, uma forma irregular na análise da estrutura silogística, uma vez que ocorre a ausência explícita de uma das premissas.
Essa indagação colocada no último verso, cuja palavra Amor faz com que voltemos à mesma análise construída no princípio do soneto, exprime a indecisão do poeta em relação ao sentimento e ao mesmo tempo atribui uma constatação empírica da realidade amorosa. O poeta serve-se da análise racional para chegar à conclusão.
Assim, a partir do conceito de que o Amor é constituído de contrários, o poeta manifesta a contradição em que fatalmente cairá o juízo que o pretenda explicar.

Trabalho apresentado no primeiro ano de graduação (Letras), em Literatura Portuguesa. Grupo: Lu, Sabrina, Marcela, Jordana

24 comentários:

  1. Olá amiguinha. Nós não nos conhecemos mas, neste mundo virtual, acabamos por conhhecer muita gente. Gostei desta sua postagem e prometo que vou voltar mais vezes. Vai aos meus blog's tenho a certeza que vai gostar.
    www.congulolundo.blogspot.com
    www.queriaserselvagem.blogspot.com
    Um beijão

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  2. Passei aqui para agradecer a vc por ter se tornado seguidora lá do blog!

    Bjos e tenha um ótimo fds :)!

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  3. Olá Lu! Boa Noite.

    Prefiro vc assim falando de amor, estado amoroso.......falar de Camões, suas poesias, combina com vc...é definir o indefinível e explicar o inexplicável....vc é assim...

    Parabéns...

    Beijos, saudade eterna.

    Deborah

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  4. Bom refletir sobre a poesia de um autor tão importante pra língua portuguesa. Principalmente no Brasil de hoje tão "massacrado" pela chamada industria cultural que despreza o passado rico da língua.
    Obrigado pela reflexão Lucimara!
    Bj

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  5. Bom dia.
    Gostei muito. No meu tempo, lia-se, Camões, José de Alencar, e outros.
    Do Camões eu li pouco, do José de Alencar, mais.
    Hoje, o tempo ficou menor para ler assim, mas eu continuo gostando.

    Um grande abraço. Bom domingo.

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  6. Pereito esse soneto de Camões, o amor é assim mesmo, sereno, louco, ardente, calmo, vela o sono, briga, mas o mais importante, o amor é benigno, ele perdoa, ele é infinito, o verdadeiro amor é pra sempre, apesar de todos os conflitos que existirão...é eterno...um beijo de otima semana pra ti.

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  7. Um escritor português que adoro também, é o Fernando Pessoa.

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  8. Olá te vi lá na Denise..Revelar-me.
    Gostei bastante do Caligrama Coração.

    Hoje comemoro o 1º niver do blog. Isso mesmojá são 365 dias que voo neste universo reconhecendo fragrâncias em muitas atmosferas pelas quais voei, inclusive a sua.

    Então venha para festa que esta rolando. Com sua fantasia confessa ou inconfessa na forma de Conto, Poema,Poesia, Uma outra simbióse, a´te um Haikai e leve com vc se desejar o Selo do Niver da Gaivota ou outro.

    Forte abraço com muitas bençãos,

    Alôha,

    Hod.

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  9. Um beijo carinhoso de otima semana pra ti amiga.

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  10. Passei aqui, para lhe desejar um bom dia.

    Um grande abraço. Bons estudos.

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  11. Aos leitores, meu abraço!
    Voltem sempre...
    Bjs
    Lu

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  12. Um excelente trabalho, com uma excelente visão, ainda que curta, da obra de Camões.
    Gostei de ler o seu ponto de vista.
    Querida amiga, bom resto de semana.
    Beijos.

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  13. Muito boa sua análise, gostei da questão dos silogismos, precisamos conversar mais sobre...
    Gosto muito de Camões, no canto X d'Os Lusíadas ele reescreveu Platão, o Mito de Er...

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  14. adorei seu trabalho mande mais vezes para que eu possa trabalhar com ele também.

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  15. Anônimo,
    Identifique-se, passe seu email, blog...
    Bjs

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  16. nossa muito boa sua interpretação!

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  17. Ótimo!!! parabéns pela sua maravilhosa interpretação.
    Trazendo para a atual realidade, os sentimentos estão assim contraditórios...Realmente estamos vivendo uma antítese.

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  18. boas gostei bue deste poema e queria conhecer melhor a luciana. se ela ler isto responda. abba. antonio couto abecassis

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  19. Olá, Antonio,
    Escreva-me: lucimaras_souza@yahoo.com.br
    Um abraço!

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  20. Adorei, Lucimara - bem pensado, construído e escrito.
    Obrigado por se incluir na lista dos "seguidores", atributo que não me faz recordar bons augúrios..., mas a intenção é que vale.
    Quando quiser, mande um texto para o Füllgrafianas, será uma honra publicá-lo.
    Um abraço carinhoso.
    Frederico

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  21. Obrigado, vcs são uns anjos.
    Tenho de explicar o poema e graças a vcs posso ter boa nota.
    Obrigado mt obrigado <3

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Obrigada por sua visita e comentário.
Volte sempre, pois é e será sempre um prazer dividir minhas letras com você!