sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ROMANCE DE NOVELA

- Ô, Dona Confidência, bonito esse rapaz, não acha?
Tratava-se de um entregador de verduras. Aparentava não mais que quatro décadas, apesar da pele judiada pelo sol. Homem simples, rodeado de mistérios. Não se sabe ao certo de onde vinha, onde morava.
- É, Cecília, mas ele é meio esquisito. Há anos entrega verdura aqui e nem sabemos o nome dele. Quando a gente fala bom dia, ele só dá com a cabeça.
Cecília era uma solteirona que trabalhava no varejão da dona Confidëncia. Nunca havia tido um companheiro. Criada só com o pai – muito conservador – foi ter seu primeiro emprego somente aos 44 anos, quando ele morreu. O conhecimento de vida que possuía não perpassava o que lia nos livros deixados pela finada mãe. Sonhava com a vidinha de casada, e era com a patroa que falava de seus anseios, suas vontades, seus sonhos, seus amores platônicos.
Com o primeiro ordenado comprou um televisor 14 polegadas. Passava ali, em frente ao aparelho, uma parte do tempo não vivido. Chegava ao trabalho cedinho e as primeiras horas eram dedicadas aos relatos das emoções vividas na noite anterior. Normalmente narrava o romântico encontro e os beijos nada econômicos dos artistas. Dona Confidência só ouvia. A moça sonhava em viver cenas como as da TV: encontros na praça da matriz romantizados pelo baile de casais apaixonados e testemunhados pela luz do luar.
Fechando os olhos, Cecília sonhava em voz sussurrante:
- A carícia nos cabelos, o toque dos lábios, a involuntária volúpia...
- Que é isso, Cecília? Você nunca foi assim – choca-se a patroa.
- Ai, dona Confidência... Estou sentindo umas coisas estranhas aqui no peito.
- Estou percebendo mesmo. Só que agora é hora de trabalhar. Vamos! Olha lá, o moço da verdura chegou.
Prontamente ela se refez. Assentou as sobrancelhas com os dedos levemente umedecidos pela saliva, sacudiu o avental. Nos últimos dias, Cecília parecia mais feliz.
- Boa tarde, seu Zé.
Era assim que Cecília o chamava.
Ele acenou a cabeça como de costume, fez a entrega e saiu.
Dia sim, dia não, era assim. Cecília sorria para ele que esboçava apenas um tímido ar de riso. Não conversavam, todavia certamente percebera o interesse da moça.
Preocupada com sua funcionária, dona Confidência chamou-a para uma prosa depois do expediente:
- Você é como se fosse minha filha, menina. Quero te ver feliz. Tenho percebido seu interesse pelo seu Zé da verdura. O que eu posso fazer para te ajudar?
Vermelha como um tomate, Cecília confessou:
- Dona Confidência... Estou com medo. Não conheço aquele rapaz. Não sei de que família vem, não sei onde mora, não sei o nome, a idade, nem a voz dele pude ouvir... E já sonho com ele fazendo juras de amor ao meu ouvido.
- Menina, menina. Isso é amor! Você está amando...
- Será? Amor é esse negócio que dá comichão na gente por dentro? – indagava Cecília, receosa.
Dona Confidência apenas sorria. Como agiria para unir aqueles dois destinos?
- Vou te ajudar, filha. Depois de amanhã, quando ele vier entregar a verdura, é dia de pagamento. Junto com o envelope do dinheiro, colocarei uma cartinha marcando o encontro de vocês aqui, no varejão. Tenho certeza de que ele também está de interesse por você. Agora vá pra casa, descanse, assista às suas novelas e pense em um discurso para a ocasião.
Assim fez Cecília. A aproximação se daria em dois dias. Ansiosa para o dia e horário marcados, ensaiou as mais belas palavras de amor em frente ao espelho. Reuniu uns versinhos antigos e colocou ali toda sua confiança. Queria o amor do Zé, que, na verdade, nem se sabia ao certo se era Zé, João, Joaquim ou Mané.
Doze de junho de 1985, 17 horas e 56 minutos. Cecília vestia sua melhor roupa para o encontro das 18 horas. Pediu a opinião da patroa.
- Está linda, minha filha. Ajeita só o laço de fita do cabelo. Fique aí aguardando. Eu vou me deitar. Qualquer coisa é só me chamar.
Às dezoito horas e três minutos, alguém bate à porta. Cecília se apruma e olha pela fresta. Era ele. Foi quando os sinais do amor tomaram conta daquele corpo e alma apaixonados: coração acelerado, mão geladas, frio intenso na barriga.
- Boa noite, seu Zé. Tudo bem? – estendeu a mão.
Ele acenou a cabeça numa resposta positiva, sem deixar cair o chapéu que diariamente usava. Ofereceu também a calejada mão.
- Chamei o senhor aqui porque tenho algo muito sério para dizer.
Zé da verdura apenas fixava seus verdes olhos nos dela.
- Primeiro quero saber seu verdadeiro nome. Posso?
O rapaz colocou a mão no bolso traseiro da calça, de onde retirou a carteira. Da carteira, um saco de plástico que continha seus documentos. Dentre eles, seu registro geral.
- Aqui está – exclamou a voz dantes nunca ouvida.
Cecília fitou assustados olhos no suposto Zé que, em seguida, concluiu:
- Maria das Dores da Silva.
- Corta, corta a cena! Perfeito, meninas! – exclamou o diretor da trama.
Dentro de poucos dias, as gravações iriam ao ar.

2 comentários:

  1. Nossa, muito muito bom o texto!
    Parabéns!

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  2. Olá, querida

    " Das alturas orvalhem os céus,
    E as nuvens que chovam justiça,
    Que a terra se abra ao amor
    E germine o Deus Salvador"...

    Fico tão sem palavra para agradecer o carinho imensurável com que me cumula ao longo do ano que só posso lhe dizer que te amo fraternalmente...
    Seja muito abençoada e feliz, amiga!!!
    Bjm de paz e FELIZ NATAL... apesar de qualquer vestígio de dor em seu coraçãozinho....

    "Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes,

    e então saberás que eu me feri e também me curei."

    Tagore

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