quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

OLHOS QUE VEEM, OLHOS QUE ENXERGAM

 Segunda-feira de trânsito caótico no centro da vizinha Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
A pé, corro como todas as outras pessoas. Sem entender a necessidade daquilo, vivendo uma loucura escravizante, própria do homem pós-moderno.
De repente, puxo meu freio e penso, convicta:
- Não!!! Eu não sou assim! Eu não tenho pressa. Quero saborear o presente, sem desperdiçar minha vida.
Foi nesse mesmo minuto em que vi um jovem casal e uma criança. Os três de mãos dadas. Sorrisos em sintonia. Simples.
Eu posicionava-me do lado oposto da rua. Aguardava o sinal verde pra prosseguir mais lentamente agora.
A cena fisgou minha atenção. O menino era a cara da mãe. O casal, cego. Ele de óculos escuros, na mão direita uma bengala de metal. Ela, no auge dos aparentes 35, cabelos longos, saia de cintura alta, esbelta. A expressão facial a diferenciava de todos os deficientes visuais que já vi. A criança, de não mais que 10 anos, era o guia.
O semáforo abriu e eu fiquei imóvel. Só consegui acompanhar a travessia dos três.
Aproximaram-se de mim. Olhei para o garoto. Ele me sorriu um bom dia cheio de ternura.
Quase desmontei! Respondi ao cumprimento; meu coração inflou-se de contentamento.
Agarrado no braço da mãe, e esta no do pai, os três seguiram. Virei-me e, com o olhar, esperei que dobrassem à direita na esquina seguinte.
Uma luz fulgurante imitava aqueles passos. Era bonito de se ver. O menino falava, gesticulava, cuidava para que os pais não tropeçassem. O casal ria alto, despreocupado.
Ao meu redor, os transeuntes continuavam sua corrida contra o tempo. Aquele grandioso espetáculo da vida passou despercebido. Lamentei.
Uma das cenas mais emocionantes que já pude presenciar. A alegria daquelas pessoas simples era contagiante. E não eram simples pessoas.
Aguardando para atravessar a rua, eu implorava o perdão divino, envergonhada por ora reclamar de um grau e meio de miopia.
A inocência de riso terno era dona de uma capacidade admirável de ser, além dos próprios olhos, os olhos dos pais. Dona da capacidade de ser humana, de ser solidária e, indiscutivelmente, feliz.
Vivi instantes de profunda reflexão. Minutos que me fizeram, naquela segunda-feira, pegar uma agenda e rascunhar minha impressão, pouco tempo depois. Minutos que ficaram eternizados aqui, dentro de mim.
Precisamos ter olhos que veem e que enxergam. A beleza da vida está atravessando na nossa frente e não estamos enxergando! Nossa alma e nosso coração estão cegos. A gente corre, enlouquece, cansa... Quando chegar a hora de ir embora, talvez seja tarde pra choro ou arrependimento.

Imagem: http://retratosdolucio.wordpress.com/2010/11/25/vela-ao-ar/

10 comentários:

  1. Há momentos em que precisamos ver e em outros que necessitamos enxergar... Belo texto.
    Escrito com muita sensibilidade de quem sabe observar a fundo.
    Um grande abraço!!!

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    1. Muito obrigada, Malu! Bom final de semana!!!

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  2. mto lindo, me sinto triste por eu mesmo olhar muito rapidamente para o mundo e para as pessoas, obrigado por nos inspirar

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    1. Obrigada, Dagostine!
      É... Às vezes não nos damos conta da beleza que nos rodeia.
      Grande abraço e obrigada por estar sempre por aqui.

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  3. Que esses olhos consigam ver bem distante...beijos amiga e um bom final de semana pra ti.

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  4. Cara Lucimara,
    belo texto!
    Precisamos mesmo de abrandar... e ver... e enxergar!
    Abraço

    ps: grato pela visita e pelo coment.

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  5. O transito é assim, as pessoas são para ir ao trabalho e sempre tem aquele mar de gente no transito ou com raiva ou pensando no que irão fazer para chegar no horário do emprego.
    Isso é muito louco pois as pessoas estão ficando cada vez mais doentes e sem perspectiva de vida só pensando em ter lucro e fartura, mas nunca pensam na sua saúde que é algo tão importante e que deveria ser mais valorizado!!
    Vamos enxergar a vida de outra forma gente!! :)

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  6. Gostaria q escrevessem uma historia c base na minha :
    -sou uma jovem muito triste pq sempre q acordo ou em varias outras horas do dia paro e penso q eu so fiz nascer n to vivendo nada ,,to disperdissando minha juventude todinha dentro d ksa,isso me deixa muito triste ,so em pensa q quando eu tive mas velha ,,vou olhar p tras e me arrepende d,tudo q eu poderia ter feito quando era jovem,mas agr n sinto vontade d fazer nada ,,as vezes acho q tou em comeco de deprecao e que alem d tristeza vou ter doencas:'(sinto como se so tivesse ocupando um lugar na tarrs em vao..
    O chata e q todos dizem q sou linda simpatica....mas eu n vejo isso so sei olhar no espelho e v uma feiura
    triste...tenho ate imveja da felicidade dos outros ..e pergunto sempre a ddeus se algum dia vou ser feliz d verdade se a vinha vida vai valer a pena ,pesso p ele me da um sinal mas acho q nem deus me esculta mais.

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    1. Envie-me uma mensagem em lucimaras_souza@yahoo.com.br. Podemos trocar mensagens. Abraço! Melhoras... Confie!

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