sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

UNIVERSO MANIQUEÍSTA

Para alguns, a palavra maniqueísmo pode nem ser tão comum.
De maneira clara e objetiva, eu diria que se trata de uma doutrina religiosa ensinada pelo profeta persa Mani; ou Manes, conforme enciclopédias. Sua filosofia dualística divide - de forma bem simplista e talvez até errônea - a criação do mundo sob dois princípios irredutíveis e antagônicos: Bem-Deus e Mal-Diabo, fusão espírito-bem e matéria-mal, ou ainda bem-luz e mal-trevas.
A questão é bem ampla e não merece apenas um post. Entretanto, como sempre considerei interessante, optei por discorrer um pouquinho a respeito, dividindo com meus leitores.
Se pararmos e pensarmos, percebemos que muitas de nossas realidades giram exatamente em torno do bem e do mal.
Nem é preciso ir tão longe; basta analisar o que está próximo, estampado em todos os lugares. Novelas, por exemplo: nunca saem daquele nucleozinho de mocinha rica apaixonada e o mocinho bom versus o vilão, ou do espertalhão de má índole que ficou milionário às custas do pobre trabalhador honesto. Pensando bem, acho que esta é a marca das nossas novelas: maniqueísmo - exagerado. Filmes, minisséries, desenhos infantis e afins seguem a mesma linha: bem e mal em batalha pelo mesmo espaço. Na maioria das vezes apresentam os desfechos melodramáticos, extremamente inverossímeis, que acabam levando o telespectador à ridícula expurgação de suas emoções.
Nossa! Quanta sensibilidade!
Como poderia deixar de mencionar os contos de fada, as fábulas?! São inúmeras obras, e naqueles contextos, ou se é do bem ou se é do mal. Uma simplificação tão pura, que justifica-se unicamente pelo fato de promover o entendimento por parte dos pequenos inocentes.
Mas em até que ponto isto é positivo?
A educação e a cultura conduzem cada um ao maniqueísmo em sua forma de pensar. A criança cresce tendo que compreender a convivência social e determinados valores do comportamento humano no meio em que está inserida. Então, desde cedo ela aprende a rotular, sejam coisas, pessoas, lugares. A vida fica reduzida sob uma estruturação dualística de certo/errado, feio/bonito, fraco/forte, razão/emoção, branco/negro, e/não é... Tudo o que é cultural e moralmente proibido é demoníaco, do mal, e todo aquele que busca banir de si as trevas, tentando fazer o bem - perante Deus -, é do bem.
A questão é bastante dúbia, no entanto, percebe-se que a divisão bem/mal depende do ponto de vista de cada um, da perspectiva e interesse de quem está julgando. Para quem "representa" o bem, o inimigo será sempre o mal, e vice-versa.
A grande verdade é que talvez esta visão pura e extremamente simples nunca mude, afinal, é na mente humana em que bem e mal digladiam.

17 comentários:

  1. Esses dias eu estava assistindo um epsódio de Star War e acabei refletindo um pouco sobre essa questão do maniqueísmo.
    A luta entre o lado "sombrio" e o lado "bom" da força mostra o quanto é forte o maniqueísmo na nossa cultura, mas ao contrario da ficção onde os maus se reconhecem como maus na vida real todos se consideram como integrantes do lado do "bem".
    O terrorista quando explode centenas de pessoas num ataque suícida acredita que esta defendendo o lado bom... E assim sempre foi na história da humanidade, em todas as guerras o "outro lado" sempre foi retratado como o "mal".
    Pode-se dizer que o maniqueísmo foi a maior motivação para guerras e revoluções... Não quero ser maniqueísta a ponto de dizer que o maniqueísmo é o mal que precisa ser erradicado, talvez tenha sido importante para a sobrevivência de algumas sociedades, mas na democracia o maniqueismo não pode prevalecer.
    Tema complexo Lucimara... acabei divagando rs
    Bj

    ResponderExcluir
  2. Complexo é pouco, Jorge.

    Maniqueísmo sempre existiu e, como falo no texto, a divisão bem e mal depende muito do ponto de vista, da perspectiva e interesse de quem está julgando.

    Valeu,
    Obrigada por continuar acompanhando...

    ResponderExcluir
  3. Realmente é uma questão muito complexa e ao mesmo tempo relevante, uma vez que nos deparamos a todo momento com o maniqueísmo. Às vezes o que julgamos do mal, pra muitas crenças e culturas são do bem, então cometemos uma injustiça, que também seria do mal...rs
    Um tema bem aberto para discussão.
    Adoro seu blog e não perco mais nenhuma semana.

    Bjos

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pelos textos, seu blog está show

    ResponderExcluir
  5. Querida Lucimara,

    Muito interessante você levantar essa discussão!

    Na verdade, essa questão do maniqueísmo é um problema do mundo ocidental. E, como tal, requer uma avaliação profunda de todo o ordenamento ideológico desse lado do mundo. Separar a realidade em extremos opostos pode ser muito conveniente a determinadas instituições, partidos, igrejas e até governos, que se valem desse recurso para segregar fiéis, seguidores, eleitores, etc. Isso força o invidívuo a se posicionar de um "lado da questão", e condiciona seus comportamentos, pensamentos e atitudes. Para não dizer "escravizar".

    Eu, particularmente, não diria que o bem e o mal digladiam - ou não costumo pensar desse jeito - porque eles são um só corpo, uma coisa só. As separações só existem no plano virtual - da linguagem, do pensamento - e são necessárias até certo ponto - a nomeação de coisas tem essa função de identificar, qualificar e separar as coisas do restante da realidade - mas é preciso reconhecer uma unidade em tudo, é preciso reconhecer que na vida as coisas não funcionam isoladamente, e que a verdade vai sempre muito além, e que entre um ponto e outro há um infinito de outros pontos.

    O que seria da luz sem as trevas? Segundo Helena Blavatsky - em uma passagem que não me lembro do I Volume de seu livro Cosmogênese - ela fala que "as trevas são a essência da luz". Sem as trevas, a luz não se manifesta. E, indo mais longe, a luz é uma condição temporária, uma forma limitada, enquanto as trevas são a realidade, a essência, a verdade. Essa pequena ilustração nos serve para compreender a tamanha irresponsabilidade em segregar opostos, sendo que ambos estão intimamente ligados, e entre eles há uma correlação poderosa, indissociável; para quem não acredita, entre dois opostos existe sim meio termo, e uma variância de aspectos, um infinito de coisas que muitas vezes é negligenciado pela visão reducionista e maniqueísta da realidade.

    Acho que falei demais! rsrs

    Beijos!

    ResponderExcluir
  6. Paulo,
    Obrigada por participar da discussão.
    O que eu quis RESSALTAR no texto é a questão da SEPARAÇÃO RADICAL em 2 princípios - bem e mal - que existe sim desde a criação desse pensamento. Isso vem da rigorosa regra imposta por esta doutrina.
    Pode ser que as pessoas nem conheçam teoricamente do que se trata, não é verdade?!
    A forma de pensar é bem simplista - e talvez até errônea, como afirmo no texto - mas o ser humano é educado, mesmo que de maneira implícita, segundo este pensamento - ainda que as separações só existam no plano virtual, como em seu comentário.

    "Tudo o que é cultural e moralmente proibido é demoníaco, do mal, e todo aquele que busca banir de si as trevas, tentando fazer o bem - perante Deus -, é do bem."
    Lembrando que quando falo em luz e trevas, falo no plano espiritual, não no material. Em nossa vida, isso é fato.
    Escolhemos caminhos e esses caminhos são sim opostos na nossa realidade.
    Você pode, por exemplo, escolher ser um renomado escritor - por méritos próprios - ou um "famoso" assassino. Moralmente, você será bem visto em qual das 2 posições?
    É amigo, a questão é muito, muito complicada e merece muito estudo.
    Para mim, na prática, a separação sempre vai existir como um princípio a ser difundido eternamente. Basta olharmos ao nosso redor...
    Obrigada mais uma vez!
    Beijos,

    ResponderExcluir
  7. Amiga.

    Penso que em nós existe e existirá esta eterna luta entre o melhor e o pior de nós.
    As duas partes sempre estarão juntas, mas a medida que fazemos a opção por uma das partes, podemos desenvolvê-la e transformar o mundo para melhor ou não.

    Semana de sonhos para ti.

    ResponderExcluir
  8. Olá,

    Obrigada pelo convite, vim e gostei muito daqui. Vc escreve muito bem, tem o dom das letras...

    Amiga, vivemos nesse eterno conflito do bem e do mal, acho até que ele se encontra dentro de cada um de nós e não em nosso meio, ou em algum ser sobrenatural, colocamos sempre a responsabilidade nos outros ou em alguma coisa pelos nossos atos cometidos.

    Volte sempre,
    Mega Beijos !

    ResponderExcluir
  9. Lucimara,

    Essa questão é mesmo muito complicada. Eu disse que bem e mal não existem, que são uma coisa una, porque tudo é uma questão de perspectiva, de ponto de vista.

    No mundo, tudo é relativo, e fica difícil dizer quem é "bom e ruim", dizer que algo é isso ou aquilo em termos absolutos.

    Por exemplo, se você tem uma filho(a) e precisa castigá-lo por ele ter faltado a escola, privando-o de jogar video game e assistir à televisão, e proibindo-o de sair de casa durante um mês,você está sendo má para ele. Embora sua "maldade" tenha o objetivo de educar seu filho e torná-lo um homem civilizado. Sua "maldade" foi totalmente respaldada no amor. Mas na perspectiva do seu filho, aquilo foi ruim, torturoso. Mais tarde, seu filho compreenderá que aquela "maldade" que sua mãe cometeu na infância visava a um melhoramento dele mesmo, e ele agradecerá por todos os castigos que passou - pois dessa forma ele aprendeu a ser um homem melhor.

    "Para mim, na prática, a separação sempre vai existir como um princípio a ser difundido eternamente. Basta olharmos ao nosso redor..."

    A ilustração da "luz e trevas", embora seja um fenômeno do plano material, também é um reflexo do plano espiritual da questão. Sem o mal, o bem não se estabelece. No entanto, como eu disse anteriormente, é difícil conceituar, na prática, o que é bem e mal, claro e escuro, certo e errado. Talvez por isso não acredito que essas coisas existam. Tudo é uma questão de perspectiva, de sentido, de ponto de vista.

    É só minha opinião!

    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  10. Pois é!
    Tudo é uma questão de ponto de vista, perspectiva e interesse de quem julga...
    Obrigada, Paulo!
    Bjs

    ResponderExcluir
  11. Oi amiga.
    Um texto maravilhoso e que causa certo espanto, pois a dualidade bem/mal nos persegue constantemente. Com certeza a igreja tem um papel fundamental na doutrina maniqueista, pelo fato de tentar conduzir o homem por um caminho de batalha constante contra um mal que não conhecemos. O simbolo utilizado para manifestar o maniqueismo, o famoso Yin Yang, representa o equilibrio entre essas duas forças que fazem parte da alma do ser humano. A igreja sempre teve a preocupação em manter esse equilibrio. Ao longo de sua história utilizou de diversas armas para incutir no coração do homem o ideal de um mundo sem a presença do mal. Mas o seu maior erro é não perceber que o homem não pode ser visto como um ser fora dessa dualidade. Essa era a visão maniqueista presente até hoje, de que o homem sempre estará ligado a dualidade bem/mal. Foi baseado nessa dualidade que surgiram as normas constitucionais do que deve ou não fazer um cidadão. O homem só poderá construir um mundo igual ao idealizado pelo igreja, quando conseguir equilibrar essa essencia confusa e complexa, pois que definiu o que certo e errado, mal e bem? Quem deve ditar as regras e normas de nossa vida? A igreja acredita que a biblioteca chamada biblía (Palavra divina) é a detentora da verdade e da forma correta de agir. A civilidade é hoje regida pelas normas e regras da constituição vigente. E você minha amiga o que acha? Não será que o homem deveria ser o único a ditar os rumos de sua vida e sua conduta? Não seria ele a definir o que é certo e errado? Bem, cada um terá sua opinião, e é nisso que esta o problema do equilibrio entre bem/mal. Foi por isso que surgiu o Estado, a chamada polis (cidade-estado) de origem grega, precisamente em Atenas, onde eles perceberam que era necessário criar um Estado com normas e regras que fossem respeitadas por todos. Uma coisa é certa minha amiga, a verdade não esta na igreja,não esta na ciências, nem da constituição que nos permeia. A verdade esta no equilibrio dessa dualidade. Segundo a filosofia maniqueista e seus seguidores, o bom senso surge desse equilibrio. Portanto o homem ideal é aquele que diante da realidade sabe discernir entre o bem e o mal, não por causa de regras pré-formuladas, mas por causa de sua capacidade de entender os beneficios e os maleficios da vida. E ai amiga, o que é certo e errado pra você? Cuidado com a resposta, rsrsr. Brincadeira, já não existe mais repressão religiosa como antes.

    Beijos e abraços.

    ResponderExcluir
  12. Acredito que o assunto esta sendo tratado com um grau de aprofundamento bastante apurado, A visão "Maniqueísta" das coisas é uma tradição cultural intrinsicamente perpetrada às sociedades durante a sua trajetória e seu desenvolvimento.
    Todos os comentarios são elogiaveis e portanto, merecedores de meu respeito.
    Gostaria de destacar que a questão dualista discutida na grande maioria das veses acarreta prejuísos na medida em que o seu emprego, em uma determinada análise, é proprio de quem pratca tabula raza acerca do objeto que se discute.Portanto impróprio provocando injustiças de natureza, das mais variadas.Tome como exemploum pai ao comparar um filho com baixo rendimento escolar a outro que so tira boas notas acaba rotulando o primeiro e provocando prejuízos imensuráveis a vida do mesmo.Não se preocupa em perceber qual é a deficiência do seu filho para poder assim, melhorar o seu rendimento escolar somente rotula um como ruim e o outro como bom. Minha esposa detesta cozinha e isto a algum tempo atráz deporia contra ela e ela seria uma má esposa. A questão é que ela é advogada, Professora de Ed. física e graças a este detalhe o nosso orçamento acaba mais equilibrado, o detalhe é que a custa da tradição cultural isto somente não conta, ela deveria cozinhar também.
    Mani, desenvolve a filosofia Maniqueista a quase mil anos atraz, mas a questão de ser bom ou ruim, certo ou errado, enfim a quetão dualista esta como comentei no início intrincicamente ligada a natureza dos interesses das pessoas ligadas a conflitos e discussões sobre qualquer tema e isto é muito mais antigo do que a gente pensa!!!
    Um abraço a todos e desculpe se me estendi demais!!

    ResponderExcluir
  13. Amigos,
    Obrigada pela participação. Pretendo retomar este assunto. A opinião de vocês é sempre muito valiosa...

    Marreta,
    Obrigada pela visita e participação... Continue sempre acompanhando. Posto todas as sextas-feiras.

    Bjs a todos...

    ResponderExcluir
  14. Lucimara, embora não concorde que os conceitos bem e mal sejam sempre relativos, gostei muito do seu blog e da sua maneira de escrever. Estou te seguindo.

    ResponderExcluir
  15. Maria do carmo freire de Queiroz27 de outubro de 2010 09:27

    Presada Lucimara, estava procurando o significado textual de maniqueísmo, deparei-me com o seu texto, adorei o seu jeito de escrever, de fácil entendimento, fiquei satisfeita com a explicação...daí continuei lendo os comentários e ficou ainda melhor...agora tõ craque, ja posso usar a palavra á vontade!!! muito obrigada.

    ResponderExcluir
  16. O meu comentário é baseado no significado do símbolo yin-yang presente no texto, que a meu ver é anti-maniqueísta. Neste símbolo não está explicito nem implicito qual das cores é o bem e qual o mal. Apenas foi colocado o branco e o preto, dizendo que o desenho está harmônico, pois estão na mesma proporção. Não faz um julgamento, diz que os dois são importantes, e no extremo de um ele se converte no seu contrário. Sendo assim é possivel imaginar um mal ou um bem absoluto? Eu não consigo conceber certas situações como passíveis de serem consideradas por uns boas, por outros ruins, por exemplo a idéia de um monstro assassino, ou uma grande destruição ,etc.. alguém pode? Logo o mal e o bem pra mim, não pode ser relativo. Mas eu entendo que não existe no mundo ALGO que pode ser, em si mesmo, bom ou mal. Esse algo depende de sua relação com outros componentes. Penso na harmonia entre todos os componentes de um determinado âmbito, na sociedade, na natureza, família, corpo humano, evitando tanto a falta quanto o excesso de um e de outro, para gerar o bem, dentro daquele âmbito, pois na relação daquele com outro âmbito também deve haver harmonia.

    ResponderExcluir

Obrigada por sua visita e comentário.
Volte sempre, pois é e será sempre um prazer dividir minhas letras com você!